CRESCE O NÚMERO DE ADOLESCENTES ENVOLVIDOS EM ASSASSINATOS EM SÉRIE
A frieza e reincidência de garotos em crimes de morte assusta até mesmo as autoridades que lidam com os casos.
As situações
em que a Polícia e a Justiça se deparam com adolescentes responsáveis
por um número absurdo de mortes são cada vez mais comuns. Com um novo
perfil, que ainda está sendo traçado pelas autoridades responsáveis por
apreensões, audiências e internações, os homicidas em série já não se
encaixam no discurso de que os menores são usados somente como
´laranjas´ do crime.
Somente
de dezembro de 2012 até fevereiro, a delegada Ana Lúcia Almeida,
titular da Delegacia Metropolitana do Eusébio (DME), e a equipe que
comanda foram responsáveis pela apreensão de dois adolescentes que podem
estar envolvidos em mais de 20 homicídios.
"O ´Roberto
Oião´, que chefia o tráfico de drogas, pratica assaltos e já matou
muitas pessoas no Eusébio, é ladeado por adolescentes que atuam com a
mesma violência que ele. Aqui está se tornando comum ter inquéritos em
que garotos aparecem como autores de cinco, sete, dez homicídios ",
disse a delegada.
No último
dia 7 de fevereiro, o Diário do Nordeste noticiou a apreensão de um
destes menores. O jovem de 17 anos, que é um dos comparsas de ´Oião´,
disse que não mata apenas quando o chefe do bando ordena, mas também
"quando dá vontade". O adolescente afirmou à Polícia que começou a matar
aos 14 anos e confessou 11, das mais de 20 de mortes de que é acusado.
Seu
comparsa, de 16 anos, foi apreendido em dezembro de 2012, na companhia
de Rosemeire Ferreira Bezerra, 41, que é sua atual companheira. ´Meire´ é
viúva de Francisco Wellington da Silva Justino, o ´Etim´, que já foi um
dos bandidos mais procurados do Estado. Ela é acusada de ter tomado
conta dos ´negócios´ do marido falecido.
Experientes
Ana Lúcia
Almeida afirmou que os adolescentes já são experientes nos delitos que
cometem e que, apesar da pouca idade, já são reconhecidos como
indivíduos extremamente perigosos. "Eles têm uma postura muito parecida.
Em geral, são muito violentos em suas ações. As execuções são
praticadas sempre com muitos disparos, já houve casos de pessoas mortas
por eles, atingidas por 23 e até 30 tiros de pistola ponto 40, que é uma
arma de grosso calibre", afirma.
A delegada
lembrou, ainda, o caso de Francisco Wesley dos Santos, 16, que agia na
mesma gangue que os menores e foi morto pelos cúmplices, a tiros e
golpes de foice. "A morte do Wesley é emblemática, porque eles agiam
juntos. Isso mostra que eles não se intimidam quando acham que devem
matar", declarou a delegada. Em novembro de 2011, outro menor suspeito
de muitas mortes foi apreendido. O jovem de 17 anos foi encontrado pelo
BPRaio no bairro Picuí, em Caucaia, e detido sob a acusação de ter
participado de mais de 30 homicídios.
SAIBA MAIS
Em
depoimento, um menor, que foi encontrado baleado no IJF, confessou 11
dos mais de 20 homicídios dos quais é acusado. Ele disse que os motivos
das mortes são diversos, tais como dívidas de drogas, queima de arquivo e
até eliminação de antigos parceiros que se aliaram a antigos
traficantes rivais. Suas vítimas foram:
Elizeu Silva de Sousa assassinado no dia 1/11/2011
Francisco Hélio de Abreu Maciel morto no dia 2/2/2013
Francisco Thiago da Silva Ferreira executado no dia 14/2/2012
José Bruno Bezerra, em data não revelada
Rafael Alves Lopes fuzilado no dia 14/6/2012
Francisco Leudo Ribeiro, morto no dia 23/5/2012
Francisco Savânio da Silva, morto no dia 27/122011
Francisco Wesley dos Santos, o ´Galalau´, morto no dia 30/7/2012
Rafael Alves, data não revelada
Francisco Ednardo dos Santos, executado no dia 28/7/2012
Lindenberg Mendes de Oliveira, o ´Lindo´, no dia 17/1/2012
Juiz diz que ECA precisa mudar
![]() |
| Manuel Clístenes Gonçalves afirmou que , em parte, o ECA já não condiz com a realidade do ´mundo do crime´ e acaba favorecendo os infratores FOTO: KIKO SILVA |
mais
homicídios causam na Justiça uma grande preocupação. Para o juiz titular
da 5ª Vara de Execuções da Infância e da Juventude de Fortaleza, Manuel
Clístenes de Façanha e Gonçalves, estes menores são um novo tipo de
infrator, que está se moldando pelos altos índices de violência onde
vivem.
"Recebi no
Juizado um dos acusados de ter matado uma pessoa e vilipendiado o
cadáver. Segundo ele, em três horas, morreram três pessoas por conta da
mesma briga de gangues. Então, mal dá tempo de a Polícia tomar ciência
do que aconteceu e começar a investigar, já surge outro homicídio. Estão
surgindo agora essas figuras, que quando a Polícia começa a
investigá-las pelo primeiro homicídio, ela já praticou outros cinco".
O magistrado
disse, ainda, que os menores se aproveitam do sistema, que os favorece.
"Para o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), tanto faz o menor
matar uma pessoa, como dez, a medida socioeducativa é a mesma - seis
meses a três anos de internação". Clístenes Gonçalves diz que, sabendo
disto, os menores que já estão implicados com a Justiça não se importam
de assumir até mesmo crimes de morte que não cometeram, porque suas
"penas" não poderão ser aumentadas.
O juiz
acredita que o estereótipo de ´laranja´, no entanto, está sofrendo uma
modificação. Para ele, o que se configura é um "tipo ideal para a
prática de determinado crime". "Já fui juiz criminal, agora sou juiz da
Infância e o que observo é que a diferença de comportamento de um menor
para um maior, em uma sala de audiência, é absurda. O adulto sabe que a
pena que ele vai cumprir é grande, então a primeira coisa que faz é
entregar o comparsa, quando este existe. Com o adolescente ocorre o
contrário, ele toma para si toda a responsabilidade pelo crime".
Políticas públicas
Neste caso, o
magistrado acredita que, por conta das fragilidades da legislação a que
os adolescentes são submetidos, estão se tornando, preferencialmente,
os escolhidos para praticar os crimes. "Quem o contrata (mandante) tem
muito mais confiança nele do que em um adulto, porque se o maior for
preso vai "entregar" todo mundo, enquanto o adolescente chega na sala de
audiência, fica calado e assume tudo", concluiu.
Manuel
Clístenes demonstrou preocupação com a nova conotação de banalidade que o
crime de homicídio está ganhando entre os jovens, dizendo que diante do
problema, as políticas públicas, para torná-los menos vulneráveis, são
praticamente inexpressivas no Ceará.
Sobre isto,
Gonçalves disse que acredita que, a longo prazo, um investimento forte
em educação e no combate total do tráfico de drogas, ´salve´ a geração
de adolescentes infratores. Já a curto prazo, somente uma reforma no ECA
para torná-lo mais aplicável e um freio na corrupção, para melhorar o
uso das verbas destinadas ao combate da miséria e do vício, seriam a
solução.
"As classes A
e B ainda não acordaram para o problema, porque as mortes acontecem na
periferia, longe de suas casas. Se os cadáveres estivessem por toda a
Cidade, ninguém teria coragem de sair de casa".
Internados
O magistrado
disse que dentro dos centros educacionais, grande parte dos
profissionais ainda não se habituou a lidar com o perfil dos infratores
graves. "O grosso do trabalho das equipes é com outro tipo de perfil.
Esses indivíduos, que aparecem cada vez mais nos nossos processos,
deixam as equipes meio perdidas". O juiz sugere que outras medidas sejam
impostas.
FIQUE POR DENTRO
Antecedentes não devem ser considerados
O Sistema
Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase) regulamentou com a Lei
12.594 a execução das medidas socioeducativas destinadas à adolescentes
que pratiquem atos infracionais. A nova legislação modificou algumas
proposições do ECA e entrou em vigor em 18 de abril de 2012. De acordo
com o artigo 42 da nova lei, os antecedentes e a gravidade do ato
infracional cometido não devem ser levados em conta na ocasião das
audiências que possam resultar em liberação do infrator. O mesmo artigo
diz que as audiências devem ocorrer a cada seis meses. Deste modo,
independente da gravidade do delito, se o adolescente se comportar de
maneira adequada no período de internação e, por este motivo, receber
pareceres favoráveis da equipe de acompanhamento psicológico e jurídico
da instituição, o juiz não deve levar em consideração os antecedentes
para mantê-lo internado.
Lei divide opiniões sobre sua eficácia
![]() |
| A DCA registrou 4. 208 apreensões de adolescentes em 2012. Mais de mil destas, por roubo FOTO: KIK0 SILVA |
O ECA vem despertando discussões sobre sua eficiência, mas a grande
maioria dos magistrados o apoia. Para Clístenes Gonçalves, a legislação é
inadequada e tem graves falhas. "Uma destas falhas é não estar
preparada e não ter sido pensada para atender a um indivíduo que mata
dez pessoas. Preparou-se o ECA há mais de 20 anos, quando as coisas eram
bem diferentes, a criminalidade tinha índices baixos".
As vítimas
dos roubos e furtos praticados por adolescentes, que em 2012 foram mais
de mil, segundo número da Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA),
também parecem cada vez mais intolerantes à repetição excessiva do fato e
desacreditam o Estatuto.
O titular da
5ª Vara acredita que não será fácil mudar a lei. "Algumas pessoas já
têm um discurso pronto para justificar os problemas. Dizem que estes
meninos vivem sem oportunidades, não têm famílias estruturadas. Isto é
um fato incontestável, como também é, que ele se tornou um criminoso.
Para mim, esse discurso é nulo e vazio".
MÁRCIA FEITOSA/ESPECIAL PARA POLÍCIA
Fonte: DN



Nenhum comentário:
Postar um comentário