MULHERES CHEFIAM TRÁFICO DE DROGAS NA PERIFERIA
O aumento de mortes violentas de mulheres jovens revela que elas estão, cada vez mais envolvidas no tráfico.
As
estatísticas da Polícia são reveladoras. Cada vez mais, aumenta o
envolvimento de mulheres no crime de tráfico de drogas. Na semana
passada, a Delegacia de Narcóticos da Polícia Civil (Denarc), em apenas
duas operações, prendeu quatro jovens, todas acusadas de comercializar
substâncias entorpecentes em diversos pontos da Grande Fortaleza. E
também por conta da maior participação delas neste tipo de delito,
aumentam também os casos de assassinatos de mulheres muito jovens.
Conforme
as autoridades, com os constantes assassinatos de traficantes e de seus
comparsas, em crimes de ´acerto de contas´, seja por dívidas ou por
disputa de território, as esposas, amantes, companheiras e até filhas
deles assumem o papel de sucedê-los no controle da venda de drogas. Os
registros de prisões comprovam esta realidade.
Operação
O titular da
Denarc, delegado Pedro Viana, revelou, na quarta-feira passada, os
resultados das últimas operações deflagradas por aquela Especializada e,
mais uma vez ficou comprovado que as mulheres vêm chefiando diversas
quadrilhas do tráfico em comunidades periféricas da Capital e região
metropolitana.
Uma das
primeiras operações aconteceu no bairro Pirambu, diante da informação de
que um ponto de venda de drogas funcionava na residência de uma mulher,
na Rua Santa Inês.
Depois de um
trabalho de ´campana´ que durou alguns dias, veio a constatação da
Polícia, uma mulher de 30 anos, identificada como Elisângela Lima do
Vale, acabou sendo apanhada em flagrante. E na casa dela foram
encontradas as drogas denunciadas pela vizinhança. "Encontramos
papelotes de cocaína, dinheiro oriundo da venda das drogas e, também,
480 frascos de um líquido utilizado na preparação de pedras de crack",
contou um inspetor da Denarc que participou do trabalho de investigação
no local.
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| Mulheres revelam diferentes motivos para entrar no caminho das drogas. Mas, a maioria diz ter sido forçada pelos companheiros que estão no tráfico FOTO: THIAGO GASPAR |
Mais prisões
Ainda no dia
13 de março, outra investigação da mesma delegacia chegou a uma mulher
que, conforme denúncias recebidas pela Polícia, era a ´chefe´ do tráfico
na Rua Martins de Carvalho, no Bom Jardim, no ´Território da Paz´ (zona
Sul da Capital).
Ali, a Polícia deteve Antônia Meire Gomes de Sousa, de apenas 24 anos.
Ao entrar na
casa da suspeita, os inspetores acharam poucas provas, já que Meire se
antecipou e jogou no esgoto as drogas que escondia para vender aos
usuários do bairro. Mesmo assim, a Polícia encontrou ali uma pistola de
calibre Ponto 40, arma de uso privativo da Polícia e que pode ter sido
usada em mortes.
No terceiro
desdobramento das operações, mais duas mulheres acabaram sendo detidas
pelos agentes da Denarc. As duas vinham vendendo crack e papelotes de
cocaína dentro de casa, uma residência situada na Rua Geraldo Barbosa,
também no Bom Jardim.
Parceiras
Maria Camila
Ferreira Boaventura e Monalisa Sousa da Silva, ambas com 19 anos de
idade, comandavam a venda de entorpecentes naquela área da cidade. Na
casa delas, os policiais apreenderam um revólver de calibre 38, além de
maconha, cocaína, crack e diversos apetrechos do tráfico de drogas.
Chamou
também a atenção do titular da Denarc a quantidade de armas de fogo que
vêm sendo encontradas em poder das traficantes. Assim como os homens,
elas montam quadrilhas para proteger suas atividades e armam os
comparsas para cobrar dívidas ou eliminar os traficantes concorrentes.
"Certamente,
foi importante a apreensão dessas armas de fogo para a contenção de
outros crimes nas áreas onde as prisões ocorreram", diz Viana.
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| Delegado Pedro Viana, titular da Delegacia de Narcóticos, tem constatado a presença, cada vez mais constante, de garotas no tráfico FOTO: KIKO SILVA |
FIQUE POR DENTRO
Lei prevê pena de até 15 anos de reclusão
A lei
federal de número 11.343, de 23 de agosto de 2006, pune no País o
tráfico de entorpecentes. O artigo 33 diz que se constitui tráfico os
atos de "importar, exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar,
adquirir, vender, expor à venda, oferecer, ter em depósito, transportar,
trazer consigo, guardar, prescrever, ministrar, entregar a consumo ou
fornecer drogas, ainda que gratuitamente, sem autorização ou em
desacordo com determinação legal ou regulamentar". A pena prevista
nesses casos varia de 5 a 15 anos de prisão, além de pagamento de multa
de 500 a 1.500 dias-multa estabelecido pelo juiz. De acordo com mesma
lei, incorre em crime de tráfico quem "semeia, cultiva ou faz colheita
de plantas que se constituam em matéria-prima para a preparação de
drogas". Nestes casos, a pena vai de um a três anos de detenção.
Garotas acabam assassinadas
"Ela era uma jovem muito bonita, que chamava a atenção, mas vinha se
envolvendo com pessoas que não prestam. Estava ficando feia, já estava
muito magrinha, e teve esse triste fim".
A
declaração à Polícia foi feita por uma garota diante do corpo de sua
amiga, a jovem Luana, 18. Na noite de quinta-feira passada, Luana teve a
vida ceifada de forma brutal no bairro Siqueira. Acabou sendo morta com
dois tiros na cabeça. O crime aconteceu no Campo do Curitiba, no bairro
Siqueira, na zona Sul de Fortaleza.
Escola
Ao tombar
morta diante de várias pessoas, Luana estava ainda fardada. Voltava da
escola pública perto do local do crime, onde frequentava as aulas
noturnas. "Foram as más companhias que fizeram ela entrar nessa onda de
drogas", contou outra amiga quando observava o trabalho de policiais na
cena do crime.
O que
aconteceu a Luana vem sendo recorrente nos bairros periféricos da Grande
Fortaleza. O número de garotas mortas em supostos crimes de ´acertos de
contas´ vem aumentando.
Ainda no
mesmo dia da morte da garota (quinta-feira), outra mulher, identificada
como Beatriz foi executada, a tiro, em circunstâncias semelhantes. O
crime aconteceu na Rua Alvorada, no bairro Parque Santo Amaro.
Desde o
começo do ano, 36 mulheres foram assassinadas em Fortaleza, em crimes
que, segundo as primeiras investigações da Polícia, têm indícios fortes
de ligação com o tráfico.
Um desses
casos chamou a atenção das autoridades pela forma cruel como as vítimas
foram executadas. Aconteceu na manhã do dia 19 de fevereiro, quando
homens armados invadiram uma casa na Rua Vicente Luís Rocha, no bairro
Quintino Cunha, na zona Oeste, e praticaram um duplo homicídio.
Era por
volta de 5 horas, quando os assassinos invadiram a casa e mataram mãe e
filha. Jovita Duarte Lima, 38; e Deysiane Duarte Lima, 19, foram
executadas com tiros de pistola. Deysiane estava com o filho pequeno nos
braços. Mesmo assim, os matadores não a pouparam. A criança foi deixada
do lado, e mãe e filha tombaram, ficando uma ao lado da outra. O caso
continua sendo apurado pelos policiais da Divisão de Homicídios.
Moradores da
comunidade onde ocorreu o crime ficaram silentes com a chegada da
Polícia, diante do medo de represálias por parte dos matadores. Contudo,
a Polícia concluiu que o ´alvo´ dos assassinos era a jovem Deysiane,
por conta de seu envolvimento com o tráfico.
Arrastada
Mais
recentemente, na manhã do dia 12 de março, os moradores da Rua Sousa
Pinto, no bairro do Lagamar, foram surpreendidos por uma cena que
chocou.
Uma jovem de
21 anos, Amanda Magda Gentil de Lima, foi fuzilada por dois homens que
vestiam farda de uma companhia de eletricidade. Depois de matar a
garota, eles arrastaram o corpo pela rua. Um traficante é o suspeito de
ter ordenado a execução sumária. Ele teria sido namorado de Magda e, de
dentro do presídio, ordenou a morte.
Queima de arquivo
Outra vítima
do tráfico foi uma jovem universitária. Era Vanessa Moreira Paiva, que
tinha apenas 22 anos. Na noite de 5 de dezembro, ela estava em um carro
com dois rapazes. Na esquina da Avenida Monsenhor Tabosa com a Rua
Antônio Augusto, o veículo foi ´fechado´ e os três ocupantes executados a
tiro.
NÚMERO
4 mulheres foram presas em flagrante, na semana passada, por crime de
tráfico de drogas, em operações realizadas pela equipe da Delegacia de
Narcóticos
Envolvimento tem motivos diversos
Para o titular da Denarc, delegado Pedro Viana, as mulheres entram no
tráfico de drogas por diferentes situações. Algumas decidem
comercializar entorpecentes por achar facilidades para ganhar dinheiro.
Outras, são coagidas pelos maridos, namorados ou companheiros. E, ainda,
há aquelas que herdam o ´negócio´ depois que os parceiros são presos ou
assassinados.
"Há
casos em que elas decidem traficar drogas porque sabem que o dinheiro
vem fácil, sabem que há mais facilidades para as mulheres até mesmo em
não despertar atenção da Polícia e até da vizinhança", afirma o titular
da Denarc.
Mas, em
outras situações segundo o delegado, muitas mulheres são forçadas pelos
maridos a entrar para o comércio das drogas, praticando o que os
bandidos chamam de ´correria´, que são as transações envolvendo o
dinheiro do crime, como fazer cobranças, entregar drogas, transferir
dinheiro e fazer a contabilidade da venda dos entorpecentes. "Muitas já
nos contaram que foram coagidas pelos maridos ou que viveram a vida
inteira sustentada pelo dinheiro que eles obtinham traficando e quando
eles são presos ou mortos, elas não sabem fazer outra coisa, não teriam
outra atividade e continuam o que eles faziam".
Vingança?
Entre os
diversos crimes atribuídos ao tráfico, em Fortaleza, um deles chamou a
atenção da mídia. O fato aconteceu na tarde do dia 15 de março último,
quando uma jovem mãe, identificada apenas por Adriana, foi fuzilada
diante dos cinco filhos.
O caso
ocorreu no bairro Rodolfo Teófilo. Adriana e o marido foram baleados
quando transitavam com os filhos, empurrando um carrinho de reciclagem.
Traficantes ordenaram o crime.
FERNANDO RIBEIRO/EDITOR DE POLÍCIA
Fonte: DN




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